Vencidos
“Beijem-se, façam as pazes antes que o dia termine, e vivam para lutar num outro dia.”
Randolph Ray

Segunda-feira - Então você acordou bem mal humorada, sem nenhuma inspiração. Mas, como sair para trabalhar de camisola não é opção, você é obrigada a abrir as portas do seu armário e arrancar do cabide a velha camisa branca amarrotada. Depois, ir até a sala catar o jeans que ficou jogado no sofá desde sábado, e calçar o sapato com o salto mais rasteiro que encontrar. Sim, por que neste dia seu projeto secreto é rastejar.
Só de pirraça não passa perfume, não penteia os cabelos, não passa batom, não quer se enfeitar. De coque, dentes escovados, calça, camisa e rasteiros calçados você está na portaria do prédio da firma, parada em frente a porta do elevador. Quando ela se abre, revelando os passageiros apanhados na garagem, lá está ele, seu ex-namorado. - (É da vida… Ela é vingativa.. Basta se fingir de morto e ela quer te pegar).
Lindo. Perfumado, penteado, e o pior, bem humorado ele diz:
- Bom dia. Bom te ver.
- Bom dia - diz você, olhando para baixo como quem procura no chão um buraco para se esconder.
Vocês estão lado a lado e ele sussurra num tom desembaraçado a frase que há dois meses você sonha escutar – só para ter a oportunidade de negar.
- Vamos almoçar hoje? Você já tem companhia?
Infelizmente, você está desarmada e balança a cabeça abaixada de um lado paro o outro, fazendo que não.
- Vamos juntos então?
A porta do elevador se abre no seu andar e você sai dizendo em voz baixa:
- Depois a gente se fala.
E assim a manhã passa e você não para de pensar no que vai falar quando seu telefone tocar. No fundo, você sabe bem o que deve fazer: Dizer não, e dizer rápido, sem muito entusiasmo ou explicação.
Tic-tac - Já é uma da tarde, ele está atrasado e sua fome começa a bater. Você se pergunta por onde anda sua coragem (ou vergonha na cara) que ainda não a fez apanhar a bolsa e descer para almoçar sozinha na cantina – da exata maneira que deveria ser.
Aí então você apanha um batom emprestado, passa na bochecha e nos lábios, penteia os cabelos de lado, respira bem fundo, e mais uma vez odeia o típico descaso daquele finado namorado.
É quando o telefone toca. Enfim, chegou a hora do combate.
Você se sente como quando na escola a sineta tocava indicando que o tempo acabara, e era hora de parar de escrever, pôr o lápis de lado e entregar a prova.
(O telefone ainda toca).
Você diz alô como um martelo que bate no prego.
- Nos encontramos na portaria? Vamos no meu carro? Você prefere massa ou salada?
- Augusto, eu não sei.
- Então a gente decide no caminho. Te vejo lá embaixo. Tchau, um beijo.
Minutos depois você está sentada na mesa do “Palácio das Massas”, com os braços cruzados sobre a tolha xadrez estampada, ouvindo ele fazer inúmeras graças e dizer, entre risos e piadas, que sente sua falta.
Muda, mal vestida e vencida pelo próprio (e mole) coração, no caminho até o carro vocês já estão de mãos dadas. Ele te encosta no capô, passa a mão pelo seu rosto, e você nada. Não consegue arrancar do peito força para uma reação. Assim, ele te beija e vocês voltam para o trabalho.
O dia acaba. Derrotada, você está no ônibus se arrastando de volta para casa. Senta um bêbado ao seu lado e te pede um cigarro. Você não fuma. Ele se levanta, xinga o trocador de viado e cai novamente sentado, dizendo que aquele era o pior dia da sua vida. Que era um homem bom, e não merecia perder o emprego no dia que descobriu que estava sendo chifrado. E, chorando, o bêbado te pede um abraço.
- Como não se sabe se pior veneno para um dia sem graça é beijar um ex-namorado ou beber um litro de cachaça, num surto de coragem, você o abraça apertado.
Maria Sanz Martins.